OBJETIVIDADE DA CIÊNCIA

Por Luís Ângelo da Silva Giffoni, ocupante da cadeira nº 33 da Academia Mineira de Letras.

Aristóteles foi um gênio, até hoje venerado. Com razão. Sua lógica irrepreensível se mostrou tão convincente que fez até a cabeça de Deus. O filósofo provou que um ser perfeito jamais criaria o Universo com a Terra fora do centro, tampouco a órbita dos planetas escaparia ao círculo, figura geométrica ideal. A bela argumentação, o Sol girando em torno da Terra, desembocaria nos mil anos conhecidos como Idade das Trevas. Note-se que o heliocentrismo circulou mais ou menos à época de Aristóteles, proposto por Aristarco de Samos, mas não conseguiu vencer a lógica irrepreensível aristotélica. Deu no que deu.

Diante do triunfalismo científico destes dias, decorrente por exemplo da comprovação das ondas gravitacionais, é blasfemo criticar a ciência e seu método. Como um dia foi blasfema a crítica ao geocentrismo. Não vamos mais queimar na fogueira pela ousadia de nadar contra a corrente, mas reputações serão colocadas em xeque. Lembro-me do filósofo Thomas Kuhn que, ao questionar aspectos do método científico, quase foi linchado pelo dito “establishment”. Mandaram-no opinar sobre assuntos de que entendesse. Até parece que físicos ou biólogos não devam falar de filosofia – ou que não falem. Ou que a discussão intelectual deva submeter-se a reservas de mercado.

A ciência não é uma ficção, mas cientistas podem fazer ficção – e das boas. Com ar douto e professoral. Com a segurança de seu método. A objetividade carrega um pouco de seus autores. Somos todos ficcionistas. O uso da imaginação leva a descobertas. Ou a ficção científica. Atravessar buracos negros para chegar a pontos distantes do universo por exemplo. Ou supor que existem 10, 20 ou 30 dimensões além das quatro conhecidas. Ou que a nosso lado, sem que consigamos ver, existe um mundo paralelo. Daqui a pouco um pastor vai dizer que o paraíso fica lá, quer dizer, aqui, mas invisível. A explicação junta a fome com a vontade de ganhar dinheiro dos pregadores.

Murray Gell-Mann, por muitos considerado o maior gênio vivo da ciência, autor da teoria dos quarks, desdenhava qualquer tipo de discussão periférica e preferia dedicar-se à pesquisa objetiva. Pesquisa objetiva? Ele deve ter sua razão, já que criou toda uma série de partículas subatômicas, hoje comprovadas. No entanto, o questionamento do fazer e da produção científica precisa ser mantido e incentivado. Afinal, Aristóteles também foi um gênio, e ideias geniais de cientistas podem não passar de mera ficção. E nem sempre há um garoto de testemunha para gritar que o rei está nu.

 

Por Luís Ângelo da Silva Giffoni, ocupante da cadeira nº 33  da Academia Mineira de Letras.

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