
Por Flávia de Queiroz Lima
O novo livro do acadêmico Pedro Rogério Moreira – QUE É ISSO, VÓ? SONHOS E MEMÓRIAS – surpreende o leitor pela forma inusitada como tece suas memórias ao longo da vida – a partir dos sonhos atuais, os personagens e enredos que eles evocam. Quando comecei, nem imaginava que o sub título seria a proposta de roteiro escolhida para retomar as histórias acumuladas e anotadas durante toda a vida. As curiosidades registradas (quem diria que a famosa frase de Tancredo – na sacada do Palácio da Liberdade – era da lavra de Mauro Santayana) , que Walter Scott não inventou, em Ivanhoé, os nomes dos santos evocados pelos cavaleiros, que damas de alta linhagem são personagens de bastidores dos tantos adultérios e aventuras conjugais, tanto na “corte”, em Brasília, quanto em Belo Horizonte, que os móveis da AML foram resultado de uma doação do presidente Sarney, e tantas outras que seus sonhos trouxeram à tona!. O “mote” de cada história, dado pelo sonho, fervilhando passagens nas quais “o sonhador” mistura realidade, memórias, fantasias e (Freud explica) desejos inconscientes mergulhados na vastidão das leituras de obras clássicas, jornalísticas, dos amigos e de grandes autores de nossa literatura.
“Salvo pelo gongo” na aplicação da lei do jornalismo, com alguma ajuda do Dr. José Bogéa (criador de Madame X, a inexistente leitora que enviava cartas ao jornal denunciando falcatruas), o exercício dessa atividade lhe proporcionou contatos interessantíssimos e a oportunidade de presenciar episódios não registrados “nas atas” de nossa história. Alguns episódios dos sonhos, como a caminhada com Francisco José Cunha Martins, o Franzé, resultavam em despertares angustiados, com a roupa empapada de suor, ou as impossibilidades sentidas, quando o sonho puxava o fio da meada na memória, quando a imaginação se misturava nela. Nessas ocasiões a “culpa” é muitas vezes atribuída a alguma comilança antes de dormir! Ficou registrada a falta de lembranças da primeira infância, mas, em compensação, da juventude em diante, todos os personagens têm nomes, sobrenomes, datas de nascimento e morte, e as palavras inventadas pelo pai para nomear ações do cotidiano.
Incrível o bestialógico inventado pelo professor Lopes Rodrigues, psiquiatra diretor do Instituto Raul Soares, recitado para os frequentadores da livraria Itatiaia. As aventuras quixotescas, como você relata: “No meio literário, onde campeia a vaidade, a doidice quixotesca é bastante comum. Também na vida empresarial e na política”.
As histórias com trens são recorrentes e inesquecíveis. Tanto as viagens na infância quanto na juventude, para casas de tios e avós, povoam os sonhos e as memórias (páginas 54, 85 e muitas outras. A malha ferroviária de Minas permitia grandes aventuras, com ou sem baldeação, e os trens apitam na memória, provocando associações de ideias e lembranças. Há muitos bastidores da vida das famílias da vizinhança, muito pomar, e sempre fartas leituras. Muito bem lembrado o dito sobre as famílias, que convivem bem até a briga nos inventários.
A narrativa é sempre muito saborosa, com revelações surpreendentes, tornando bem verdadeira a observação à pág. 159: “nem tudo o que é falso merece o fogo” “sou contra a destruição de quadros falsos”. Fartas também são as histórias passadas no Planalto, os sonhos com políticos já falecidos, as viagens com autoridades para eventos históricos. Enfim, um livro que pode inquietar alguns poderosos, mas que traz à luz bastidores relevantes para nossa história. Lembro de um livro chamado “O império em chinelos”, que li quando muito jovem, e me diverti bastante com a maneira leve como os fatos são narrados. “O que é isso, vó?” poderia bem chamar-se Minas em chinelos: diários de um sonhador”. Adorei a estratégia do sonho usado como “gatilho” das memórias.


