Miniatura

Acadêmico
José Henrique Santos
Número de Cadeira
18 Patrono: Silva Alvarenga
Data de Posse
27 de março de 1992
Posição na Cadeira
3° Sucessor
Status
Membro atual
Contato
sjhenrique@gmail.com
Descrição Biográfica
O filósofo e professor José Henrique Santos nasceu em Paracatu, Minas Gerais, em 29 de novembro de 1934, filho de Salvador Gonçalves dos Santos e de Maria Conceição Silveira Santos. Casado com Ângela Lúcia Mascarenhas Santos, teve dois filhos. Angela faleceu em 29 de junho de 2021. Ele a conheceu na UFMG, onde ela lecionava filosofia moderna. Gostávamos de trabalhar juntos, e sempre conversávamos acerca de nossas leituras e opiniões, o que era bem proveitoso para ambos. (Era o que o Prof. Velloso chamava de symphilosophein, quer dizer, “filosofar trocando idéias""). Mesmo depois, em Freiburg, na Alemanha, mantiveram o mesmo costume, principalmente quando José Henrique preparava as questões para a entrevista com o orientador, o Prof. Eugen Fink.
José Henrique aprendeu as primeiras letras no Grupo Escolar Afonso Pena, que ficava perto de sua casa.
O interesse pela filosofia aconteceu desde cedo, influenciado pela literatura e, como não podia de ser, pela poesia. Leu Machado de Assis, assim como muitos outros autores brasileiros, como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Até hoje o prazer da leitura se mantém firme, e mesmo a releitura lhe proporciona inesperadas descobertas. Começou com Drummond, Bandeira, e logo passou a explorar o riquíssimo tesouro poético brasileiro. Aos nacionais logo acrescentou Camões e Fernando Pessoa. Depois de melhorar seu conhecimento da língua alemã, começou com Hölderlin e Goethe. O Fausto o influenciou bastante, e os diálogos com Mefistófeles o ajudaram, não raro, a “economizar estilo” de maneira bem expressiva. Não foi à toa que estudou no Goethe Institut de Ebersberg, perto de Freiburg. Leu também toda a obra de Kafka. Quanto aos conhecimentos de francês e inglês, o fato de começar a trabalhar na Beneficência da Prefeitura de Belo Horizonte lhe permitiu pagar a Cultura Inglesa e a Francesa, no período noturno. O latim e o grego foram mais difíceis.
No Colégio Arnaldo, onde começou os estudos secundários, o latim era disciplina do currículo, e já no primeiro ano ensinavam a ler e falar, mas não foi muito longe, devido à necessidade de trabalhar. Prestou então concurso para o Colégio Estadual, que era gratuito, e começou no primeiro ano. Mas considera que foi um desastre, porque no Colégio Arnaldo, os padres davam toda a assistência ao estudante, o que não acontecia no Estadual. O sistema de ensino era bem diferente, e José Henrique sentiu-se desorientado. Foi reprovado duas vezes e desligado do Colégio. Ironicamente, trinta e poucos anos depois prestou concurso e voltou como professor. Então passou a estudar no Colégio Tiradentes, que funcionava no Quartel de Instrução da Polícia (DI), o que considerou que foi uma salvação. Os próprios oficiais davam as aulas, sempre bem preparadas, de modo a produzir aquele prazer de perguntar para o saber mais que está na origem de todo conhecimento. Os alunos civis tinham como colegas soldados, cabos e sargentos, que se educavam para subir na carreira militar. O diretor da escola, Prof. Argentino Madeira, excelente pianista e latinista consumado, foi quem o despertou para Virgílio e a leitura das éclogas, com a pronúncia adequada. Considerou que esse foi o começo de uma aquisição feliz.
O estudo da Matemática foi com o major Dório. Suas explicações eram bastante claras, e o ajudaram a vencer a dificuldade precoce que tinha em com a ciência dos números. As outras matérias do currículo eram mais fáceis, e sozinho se arranjava bem.
O aprendizado do grego, imprescindível aos estudos filosóficos, teve de esperar um pouco mais. Começou a frequentar as aulas de grego em Freiburg, onde, já no primeiro dia, os alunos eram encorajados a ler e falar. Não pôde chegar ao fim do curso, porque sua bolsa estipulava que o assunto eram as Investigações Lógicas de Edmund Husserl, que teve de estudar em três grossos volumes. De qualquer modo aprendeu um pouco de gramática e pronúncia, que não lhe pareceu muito difícil. Continuou no Brasil, lendo primeiro os Evangelhos, depois os pré-socráticos. Pouco a pouco foi melhorando, e conseguiu ler Aristóteles, com auxílio do dicionário, e depois Platão e os trágicos gregos.
Leu também Shakespeare em inglês, e depois James Joyce, Aldous Huxley e Oscar Wilde. Em francês, começou com Os Moedeiros Falsos de Gide, e logo acrescentou às leituras Roger Martin du Gard, Proust e outros, não esquecendo dos poetas: Baudelaire, Rimbaud e Verlaine. Acredita que além do prazer da leitura, foram essas as personagens principais de seu estudo sobre “Os Paraísos Artificiais”, sobre o uso de drogas, - que faz parte de seu livro O Paraíso Perdido.
Vale acrescentar as leituras de Dom Quixote, da Divina Comédia e Dostoiévski, pois acredita que Os Irmãos Karamazov apresentam uma filosofia implícita, com profunda implicação religiosa que muito o tocou.
A formação acadêmica teve início em 1959, na Universidade Federal de Minas Gerais, onde se bacharelou e licenciou em Filosofia, seguida de estudos na Universidade Albert-Ludwings-Universität de Freiburg in Breisgau, República Federal Alemã, de 1962 a 1964. O título de Doutor em Filosofia (Phd) foi alcançado na UFMG, em 1972 e o Pós-doutorado nas Universidades Albert-Ludwigs-Universität de Freiburg in Breisgau , em 1974, e na verhard-Karls-Universität, de Tübingen , em 1988.
A partir de 1993 tornou-se Professor Titular de Filosofia, da UFMG, onde também exerceu as funções de Vice-Reitor , de 1978 a 1982 e de Reitor, no período de 1982 a 1986. José Henrique Santos atuou ainda como Pesquisador 1-a do CNPQ de 1986 a 2004, com vigência da bolsa até 28/02 desse ano. Foi também Consultor do CNPQ e da CAPES; Presidente da Associação Nacional de Pós Graduação em Filosofia (ANPOF), no período de 1992 a 1994 e Membro efetivo da Sociedade Kant Brasileira e Membro efetivo do conselho consultivo de várias publicações e revistas filosóficas.
Entre suas obras publicadas estão: Do Empirismo à Fenomenologia: A Crítica antipsicologista de Husserl e a Idéia da Lógica Pura, Coleção “Filosofia”, Livraria Cruz, Braga, Portugal, 1973. (Várias reedições); Trabalho e Riqueza na Fenomenologia do Espírito de Hegel, edições Loyola, SP, 1993; Que é isto, a filosofia?, de Martin Heidegger, tradução, com introdução e notas explicativas, Coleção Estante Universitárias, BH, 1962; O Trabalho do Negativo: Ensaios sobre a Fenomenologia do Espirito, edições Loyola, 2020; Paraiso Perdido. Ensaios de Reconciliação, edições Loyola, 2020.
Além desses livros, José Henrique Santos teve publicados inúmeros artigos e ensaios, entre os quais: A Universidade e a Cultura Brasileira, Revista Brasileira de Estudos Políticos, v. 71, p. 83-100; o mesmo, in Sintese, n. 49, p. 15-28, 1990; Ética e Medida, Síntese, v. 18, n. 55, p. 577-584, 1991; O Ceticismo e a Descoberta da Razão na Fenomenologia do Espírito de Hegel, Kriterion, v. 35, n. 93, p. 134-145, 1996; o mesmo in Finitude e Transcendência, Festschrift homenagem a Ernildo Stein, ed. Vozes, Petrópolis-Porto Alegre, 1996, p. 301-313; O Lugar da Crítica do Juízo na Filosofia de Kant, Kriterion, v. 95, p. 73-91, 1997; Assalto à Razão Administrada (Ensaio), Suplementa Pensar, Estado de Minas, 23/05/1998, p. 1-3. Brava gente Brasileira (Ensaio), Suplemento Pensar, Estado de Minas, 13/02/1999, p.1-4; o mesmo, com correções, in Varia História, Belo Horizonte, n. 20, março de 1999, p. 7-27; ibidem in Veritas, revista trimestral de filosofia da PUCRS, pp. 977-9994, Porto Alegre, v. 44, n. 4, dez. 1999; Elogio Acadêmico de Arthur Versiani Velloso, edição da Academia Mineira de Letras, n. 59, p. 1992; Ética e Política. A Tragédia do Mundo Ético. Cadernos da Escola do Legislativo. BH, v. .8, p. 9-39, 1999; Democratização da Universidade Brasileira, Revista Educação Brasileira, do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, Brasília, prim. Semestre 1986, p. 19-24; o mesmo in Dialética e Liberdade, Festschrift em homenagem a Carlos Roberto Cirne Lima, Ed. Vozes, Petrópolis-Porte Alegre, 1993, p. 282-287; O Ensino de Humanidades, in Ensino das Humanidades. A Modernidade em Questão, ed. Cortez, SP, 1991, p. 149 seg; A propósito do Hegelianismo Hoje – um Anacronismo?, de W. Rod, in Hegel, UNB, Brasília, 1981, p. 21-27; O Homem, a Natureza e o Futuro (Comentário), in Alternativas Políticas, Econômicas e Sociais até o Final do Século, UNB, Brasília, 1980, p. 379-382; Tancredo Neves: Entre o Conflito e a Conciliação (Prefácio), in Tancredo Neves: A Trajetória de um Liberal, de Lucília Neves Delgado e Vera Alice Cardoso, ed. Vozes, Petrópolis, 1985; Depoimento, in Memória de Reitores (1961-1990), BH, Editora UFMG, 1998; Sobre a Experiência do Infinito: Marcas do Caminho. (Ensaio em homenagem a Henrique Cláudio de Lima Vaz, por ocasião de seus 80 anos. Publicado em Síntese, volume coletivo, 2002, p. 135-161.)
José Henrique Santos recebeu como condecorações a Grande Medalha da Inconfidência, 21/04/1983, a Medalha Santos Dumont (Ouro), 23/10/1982 e a Medalha Thomas Masaryk, outorgada pelo Governo da Tchecoslováquia Livre, 1961, além dos prêmios acadêmicos: Prêmio Diretório Central dos Estudantes da UFMG, em 1958; Prêmio Leonel Franca, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, em 1958.
José Henrique Santos considera que sua atuação ajudou a melhorar o currículo do ensino da filosofia na UFMG: ele trouxe da Alemanha o conceito de “Liberdade Acadêmica”, que permite ao professor escolher o assunto do curso, definido no currículo obrigatório, sem ficar obrigado a repetir todos os anos o mesmo assunto de sempre. Foi uma excelente conquista. Renovar é uma eterna alegria!
José Henrique Santos ocupa a cadeira nº 18 da Academia Mineira de Letras, para a qual foi eleito em 28 de agosto de 1986 e tomou posse em 27 de março de 1992.



