O LIVRO DOS VIAJANTES PORTUGUESES – Danilo Gomes

                    Com muito gosto e proveito, li  O Livro  dos Viajantes Portugueses – Passagem para Ouro Preto, organizado  por Solange Cardoso  e dado a  lume  pela Editora Liberdade, de  Francelina e Arnaldo Drummond. A editora tem sede em Ouro Preto e a primorosa edição é enriquecida por  interessantes  fotos.

                   Na Apresentação, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, prefeito de Ouro Preto e membro da Academia Mineira de Letras, ressalta :

                    “Solange Cardoso soube enfeixar, com apurada sensibilidade, testemunhos marcantes do diálogo entre autores portugueses e Ouro Preto. Revejo amigos entre eles e é como se de novo estivéssemos a percorrer a cidade do Aleijadinho. O poeta Luís Felipe de Castro Mendes, tendo sido cônsul geral no Rio de Janeiro, esteve aqui muitas vezes. E a saudosa jornalista e escritora Leonor Xavier, a amiga Leonorzinha, que  tanto amou o Brasil.  E Guilherme d’ Oliveira Martins, que registra o nosso encontro. E Lídia  Jorge.”

                   São de grande luzimento os autores  selecionados por Solange Cardoso para essa antologia : Sérgio Luís de Carvalho, Amadeu  Lopes Sabino, Luísa Coelho,  Guilherme d’ Oliveira Martins, Adalberto Alves, Luís Filipe de Castro Mendes, Leonor Xavier, Lídia Jorge, Possidónio  Cachapa, Onésimo Teotónio  Pereira de Almeida, Jacinto Rego de Almeida, António Gomes, Inês Correia, Fernando Baião Dias e José Miguel Correia Noras.

                  O grande Vitorino  Nemésio não é esquecido. Ele é lembrado por Angelo Oswaldo e  também  por Guilherme d’ Oliveira Martins, que bem acentua:  “Vitorino Nemésio foi a Ouro Preto em 1952. Deixou-nos O Segredo de Ouro Preto, que trazemos como breviário para esta peregrinação ao sertão de Minas. É impressionante como sentimos os seus  passos em cada página que lemos e em cada viela, beco ou travessa que calcorreamos. O certo é que o professor e o poeta olharam com sentido crítico esse momento de encontro, cientes das resistências e das distâncias  naturais que iam sentindo. Ao seu amigo Celso Cunha chamava Nemésio novo inconfidente, como se o ADN  de Tiradentes nele revivesse de modo renovado.”

               Já no prefácio, Solange Cardoso ( há anos morando em Portugal, como o casal de escritores Ronaldo Cagiano / Eltânia  André )   anunciava : “É nesse contexto  que surge esta coletânea de textos, uma publicação inédita  que revela os olhares contemporâneos  de escritores portugueses sobre Ouro Preto.(…) Os textos trazem o olhar sensível e delicado, ao mesmo tempo contundente e arrebatador, de renomados escritores, poetas e intelectuais portugueses contemporâneos que embarcaram  em viagens   reais e imaginárias pela cidade histórica. O resultado é um conjunto de grande qualidade literária, marcada pelo estilo bem pessoal e criativo de cada autor, levando o leitor a mergulhar na ( re)construção da cidade .”

               O livro editado por Francelina Ibrahim Drummond e Arnaldo Fortes  Drummond é uma obra de 223 páginas, impressas em excelente papel Pólem  Bold  90 g / m2 e bem legíveis caracteres Garamond e Hind  Madurai. O conteúdo histórico-literário-personalíssimo, confessional,  é de extraordinária riqueza,  um heráldico ouro sobre azul da herança  barroca  lusitana, temperado com a nossa culinária, aí compreendidos, como bem lembra Solange Cardoso, “ o pão de queijo  e a farofa, bem como a caipirinha de maracujá feita com a bela cachaça de Minas.”

               E não poderiam faltar minha cidade de Mariana, assim como referências ao casal  Antônio  Joaquim de Almeida / Lúcia Machado de Almeida,  ao  ficcionista Cunha de Leiradella e outras ilustres  personalidades, lembranças de Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa…

               Cumpre destacar, nessa magnífica obra de cariz transatlântico ,um tesouro da pertença luso-brasileira,  a revisão da erudita professora ouropretana Elinor  de Oliveira Carvalho.

                Encerro este modesto artigo com as palavras finais da “orelha” esquerda do livro : ‘O painel é rico e profundo, na esteira de Miguel Torga e Vitorino Nemésio. São textos que transfiguram a cidade e vão certamente surpreender o leitor.”  Por derradeiro, acrescento: esse livro é uma encantação. 

 

Danilo Gomes é Membro da Academia Mineira de Letras- cadeira nº 1

                  

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