Nascido em Mariana – o que diz muito – o escritor Danilo Gomes, além do bom humor já tão restrito em nosso tempo – é um excelente cronista, um dos maiores do Brasil atual. Residindo em Brasília, depois de longo percurso como jornalista do serviço de imprensa da presidência da República, desde o Catete, continua servindo aos seus leais leitores – inúmeros.

Recentemente, ele escreveu sobre “Napoleão Bonaparte, ator teatral”, uma jóia como se fala em Minas. Começa por referir-se a Jean Tulard, o maior especialista sobre o tema, que afirma existirem mais de 60 mil livros sobre o personagem. Danilo evoca um de L.B. Horta Barbosa, publicado no Rio de Janeiro, em 1923, em que o autor execra o imperador; “livro cruel, excessivamente severo para com o gênio político e militar”. Lembram-se seus fracassos, erros, desencantos, tudo que pudesse denegri-lo.

O marianense, meu dileto confrade na Academia Mineira de Letras, prefere um ensaio do pensador Ralph Waldo Emerson – sensato, equilibrado, justo, brilhante. Ele repete Emerson: Napoleão era “potente ator, sempre pronto, que agarrou a ocasião pelos cabelos”. Acrescenta: “divertia-se a fascinar Josefina e as suas damas de honra numa sala fracamente iluminada, pelos terrores de uma ficção, na qual sua voz e o seu poder dramático exerciam largo papel”.

O tradutor, Alfredo Gomes (não é da família de Danilo), em nota ao pé de página, observa: “Napoleão preocupou-se demais pela encenação, pelo artifício e pela retumbância”. E mais: “a colaboração de seus auxiliares lhe proporcionou a atmosfera de glória”. A personagem lembra algum político deste nosso tempo?

Não há quem, em algum período da vida, não tenha sentido um certo fascínio por Napoleão, o homem ou o artista, porque afinal todos vivemos o nosso papel na face da terra. Ele procurava haver-se com as ocasiões que se lhe ofereciam. Sabia conduzir-se diante do público, tendo declarado: “uma grande reputação é feita de muito ruído; quanto mais barulho se faz, mais longe se ouve. Leis, instituições, pronunciamentos, nações, tudo cai, porém, o ruído continua e ressoa nos séculos seguintes”.

Jean Tulard observou que Bonaparte cuidou, ele próprio, de tecer sua coroa de imortalidade. Exercia fascínio sobre as pessoas, as tropas. Fez questão de manter sua lenda, nos jornais interessados em relatar suas campanhas. Diz Danilo Gomes: era um campeão da mídia, um tal da política-espetáculo, como Carlos Magno, reverenciada a memória por outro craque das letras da AML, Pedro Rogério Moreira, em agradável livro.

No entanto, o cronista de Mariana aduziu: já no Consulado, o corso criou sua própria figura: a mão enfiada no colete, o chapéu característico e exótico para sua época; os arroubos, como ao arrancar do peito a Cruz da Legião de Honra (que ele próprio inventara), o andar inquieto, pra lá e pra cá, com as mãos para trás, como os atuais garçons de restaurantes, entrelaçadas.
Tulard vai além: “Napoleão tinha um senso inato – a propaganda”. Ainda hoje, lembra-se sua frase no Egito: “soldados, do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”. E foi aplaudido por suas legiões.

O biógrafo não deixa por menos: “penso o que teria feito, se tivesse tudo à disposição, como De Gaule, uma televisão por exemplo”.

 

 

 

Por Manoel Hygino dos Santos, membro do Conselho Editorial da Revista da AML, ocupa a cadeira nº 23